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Duas perguntas básicas sobre a marcha contra corrupção: O que você deseja conservar quando marcha? O que a pessoa que marcha ao seu lado deseja conservar quando marcha?
Talvez você pense que estas perguntas não sejam necessárias, que a desonestidade é, por princípio, prejudicial a todos e deve ser combatida. Entretanto eu pergunto, seria a ética algo tão óbvio a ponto de milhares de pessoas compartilharem o entendimento de seu significado de modo intuitivo, sem reflexão nem diálogo?
Crescemos mergulhados na noção de que além da ética não existe salvação, ou seja, não pode existir um modo humano de ser que não seja ético. Nas escolas, empresas e campanhas de cidadania recebemos reforço sobre a importância da verdade, honestidade e igualdade entre todas as pessoas. Desse modo acreditamos que estes valores são um senso comum básico e, quando afrontados, sentimos um mal-estar íntimo profundo.
Acontece que a Era do Consenso nunca existiu, e agora definitivamente acabou! Hoje sabemos que o mundo é um lugar absolutamente complexo, com bilhões de pessoas vivendo a partir de suas próprias e exclusivas concepções culturais e pessoais.
Ética é um fluxo de conversação que mantemos a partir do respeito mútuo entre todos os membros da sociedade. Não pode ser capturada numa carta de princípios, muito menos numa tábua de leis. Pode ser vivenciada como uma prática na qual nos perguntamos pelo viver do outro que está ao nosso lado, e pelo nosso próprio viver. Não existe conduta ou prática que seja, em si mesma, uma ação ética.
Mas muita gente pensa que ética é apenas uma questão de princípios que não podem ser questionados, são fundamentos do viver humano e pronto. Ocorre que, tecnicamente, quem não reflete sobre seus fundamentos é um fundamentalista. E a partir deste entendimento me pergunto: Sou um robô marchando na multidão, ou um homem que caminha livre a partir de suas reflexões?
Assinei as petições a favor do ficha limpa e apóio totalmente o fim da corrupção em nosso país (e planeta). Entendo a mobilização das pessoas que querem marchar e sei que este é o menor passo possível que pode ser dado dentro do repertório político de quem vai marchar. E realmente espero que todo esse buzz ajude a empurrar prá frente o bom senso das pessoas que estão em posição de decidir contra ou a favor a ética no Brasil.
Entretanto me preocupa o grau de ingenuidade de quem imagina que a corrupção é algo que está em algumas pessoas, e não em todo nosso sistema. E daqueles que acreditam que a solução deste problema pode ocorrer sem um processo de entendimento sobre tudo o que nos trouxe até aqui na história do nosso Brasil.
Marchar para linchar os culpados não nos torna inocentes de toda nossa própria corrupção cotidiana. O que estamos fazendo em nosso dia a dia para respeitar o outro como a nós mesmos? Ou se trata apenas de defender nosso patrimônio? Estamos marchando por um Brasil mais justo ou para protestar porque estão mexendo em nosso queijo?
O que vamos fazer depois de marchar? Entrar em nosso carro com ar-condicionado e acessar a banda larga de dez mega em um monitor LCD? Ou vamos atravessar a rua e conversar com um morador de rua para ver, sentir e se envolver com o problema dele, tanto quanto você está envolvido com os seus próprios problemas?
E a pessoa que marcha ao seu lado, o que ela deseja conservar? Se você perguntar a ela talvez descubra um mundo completamente diferente do seu. Estabelecer contato com estes mundos que nos cercam, entender que todos são igualmente válidos tanto quanto o nosso, e construir modelos de ação que harmonizem estas diferenças, este é nosso grande desafio. Claro que tudo isso começa com um pequeno passo, que pode ser dado em uma marcha coletiva de vez em quando, mas que se torna um caminho efetivo apenas quando o trilhamos todos os dias.
O que você deseja conservar quando marcha? O que a pessoa que marcha ao seu lado deseja conservar quando marcha? Sem estas respostas você pode estar marchando como um robô, servindo apenas como um número em uma conta de multidão por metro quadrado.
Quem não se pergunta sobre seus próprios fundamentos e age como se conhecesse a única verdade que existe, julga todos os outros a partir deste fundamento, e não admite ser contrariado.
Quem não reflete sobre o seu viver e não sabe porque escolhe o que escolhe, exige seu direito de escolher acima de tudo, até mesmo da vida de outros iguais a ele!
Quem não dá um passo ao lado e se vê querendo o que quer, espera que todos mudem de opinião, até que cheguem em consenso na opinião que ele mesmo tem sobre tudo.
Estes que se movem com premissas agem como robos, não como humanos que seguem em um fluxo circunstancial de emoções e razões do seu acoplamento diário com o meio em que vivem.
Esta é uma marcha pela igualdade social entre os homens, ou apenas defende as propriedades, as tradições e as famílias?
Não há uma resposta que explique a marcha, mas pode haver uma resposta sobre o marchar de cada um. Esta resposta pode ser encontrada se cada um aceitar a pergunta: o que desejo conservar em meu viver quando marcho com outras pessoas?